quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

100 anos de Décourt


Geraldo Cardoso Décourt
14/02/1911 - 27/05/1988
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Em 2011 comemoraremos os 100 anos do nascimento do extraordinário Geraldo Décourt, um homem a frente de seu tempo. Desde jovem demonstrou sua genialidade, primeiro, “inventando” um dos esportes mais praticados no Brasil, trazendo para as mesas toda a emoção do futebol dos campos, depois, através da música, pintura, cinema e literatura. Uma vida de artista, um verdadeiro artista que, como tal, encanta a todos que se debruçam acompanhando sua trajetória. Na vanguarda do esporte e das artes Décourt foi uma pessoa fantástica. Queremos aqui fazer nossa homenagem retratando um pouco da sua história que se mistura com a história da arte brasileira.
Geraldo Cardoso Décourt, nasceu em Campinas no dia 14 de fevereiro de 1911, viveu no Rio de Janeiro mas podemos dizer que ele foi um "cidadão brasileiro" em função de suas constantes jornadas profissionais e desportivas pelo Brasil. Muitos inclusive, atribuem ao flamenguista Décourt, uma naturalidade carioca.
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Música

Décourt foi ator, pintor, escritor e compositor. Inicialmente dedicou-se à música brasileira como compositor. O conjunto vocal e instrumental, “O Bando da Lua”, em 1934, gravou pela primeira vez uma composição de Geraldo Décourt: Três Estrelas.

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Primeira formação de o bando da Lua: Aloísio de Oliveira (violão e vocal), Osvaldo de Moraes Éboli - Vadeco (pandeiro), Helio Jordão Pereira (violão), Ivo Astolfi (violão tenor e banjo), Afonso Osório (flauta e percussão) e Stênio Osório (cavaquinho).

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Em 1935 Sônia Carvalho gravou o samba “Adeus” com acompanhamento de Benedito Lacerda e seu conjunto regional, no mesmo ano Raul Torres e Nestor Amaral, pela Odeon, gravaram “Os Teus Olhos Brilham Tanto” de Geraldo Decourt.

Em 1936, Decourt participou da comédia musical “Alô, Alô, Carnaval”, com a música “Não Beba Tanto Assim” interpretada pelas “Irmãs Pagãs".
Veja no link http://www.youtube.com/watch_poput?v=rRP51L0tmgI#t=0 um vídeo com as Irmãs Pagãs, cantando “Não Beba Tanto Assim” de Geraldo Décourt.
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Elvira Pagã, famosa vetete brasileira, cantou música de Décourt
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Tendo primeiramente o título de “O Grande Cassino”, a comédia, dirigida e produzida por Adhemar Gonzaga, foi lançada nos cinemas do Brasil sendo o único filme brasileiro dos quais Carmem miranda participou que sobreviveu ao tempo. Estreou no Cinema Alhambra, no Rio de Janeiro, com grande sucesso de público e um mês depois, o êxito se repetiria em São Paulo. O elenco, alem de Carmen Miranda, era composto por Jayme Costa, Barbosa Júnior, Pinto Filho, Jorge Murad, Álvaro Rocha, Dario Melo Pinto, Didi Viana, Hervé Cordovil, Oscarito e Pery Ribas.

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A ideia do filme surgiu da necessidade de se apresentar ao grande público os grandes cantores da fase de ouro do rádio brasileiro, já que não havia televisão e a população de baixa renda praticamente não tinha acesso aos cassinos.

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Pintura

Como pintor, Décourt era autodidata e, segundo Paulo Mendes de Almeida, foi o primeiro ou, seguramente, um dos primeiros abstracionistas do Brasil. Em 1952 sua exposição no Teatro Municipal foi uma das primeiras manifestações modernistas em Campinas. Em entrevista telefônica, Décourt confirmou que sendo campineiro, quis fazer seu nascimento na pintura e nas artes, em Campinas, sua terra natal. Campinas, naquela ocasião, apesar de sua arquitetura já estar bem avançada, levou um choque muito grande, ao ver a série de trabalhos geométricos de Décourt, pois estavam todos acostumados ao realismo visual. No início, houve certa oposição, mas conforme os dias foram passando, os estudantes de Campinas procuraram Décourt no Municipal, e se ofereceram, inclusive, para ficar tomando conta da exposição, na sua ausência, pois eles o admiravam por ter quebrado um tabu em Campinas.
Em 1958 Décourt também fez parte da primeira exposição do Grupo Vanguarda em Campinas juntamente com os artistas: Eduardo Belgrado, Hermes de Bernardi, Francisco Biojone, Mário Bueno, Maria Helena Motta Paes, Thomaz Perina, Raul Porto, Franco Sacchi e Geraldo de Souza. Essa exposição e as novas idéias difundidas pelo grupo geraram muitas polêmicas. Foi muito criticada  pelos artistas mais conservadores e pela maioria do público que, acostumados com os padrões neoclássicos, resistiram às novas propostas artísticas. No entanto, foi aí, no final da década de 50, que Campinas – até então atrasada em relação a outros centros do país, que já tinham incorporado os avanços da arte – colocou-se no mesmo nível que São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Fortaleza. O surgimento do Grupo Vanguarda foi decisivo para que Campinas, finalmente, deixasse de ser uma “província do Império”.

Décourt, como pintor, participou do Salão Paulista de Arte Moderna tendo recebido ao Prêmios Medalha de Bronze em 1961, Medalha de Prata em 1962 e Premio Aquisição em 1963.

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Participou do VI Salão Nacional de Arte Moderna, do I, II e III Salão de Arte Contemporânea de Campinas, tendo recebido Menção Honrosa em 1965 e Grande Medalha de Bronze em 1966. Participou ainda de outros salões oficiais, de exposições coletivas e individuais. Em 1966, em São Paulo, participou da organização e do júri do 15º Salão Paulista de Arte Moderna, na Galeria Prestes Maia.

Cinema

A partir de 1969, Geraldo Décourt decide entrar para o cinema, participando como ator coadjuvante em uma série de oito filmes: 1969 – Em Compasso de Espera (Drama), 1973 – Maria...Sempre Maria (Drama), 1973 – Trindade É Meu Mome (Faroeste), 1974 – A Virgem e O Machão (Comédia), 1974 – Macho e Fêmea (Comédia), 1974 – O Supermanso (Comédia), 1975 – A Carne (Drama) e 1976 – Quem É O Pai da Criança (Comédia).
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Décourt, em uma cena do Filme "A Virgem e o Machão"
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video
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Como ator coadjuvente,  Décourt contracenou com famosos artistas,
como neste filme ao lado de Vera Fisher
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Em "A Carne" contracenou com grande elenco
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Literatura

Como escritor Geraldo Décourt, em 1987, lançou o livro “Aconteceu Assim”, uma autobiografia onde Décourt reservou um capítulo exclusivo ao futebol de mesa. Um documento valioso para a história do botonismo e leitura indispensável para os amantes desse esporte.

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Futebol de Mesa

Alias,  não se pode falar de futmesa, no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo, sem citar o nome de Geraldo Décourt. Ele foi o grande precursor do futebol de mesa no Brasil. Décourt começou a jogar utilizando, a princípio, botões de verdade, ou melhor, os das próprias cuecas. Depois, passou a usar os da calça do uniforme da escola onde estudava, o Colégio Aldridge, do Rio de Janeiro. “A escola chegou a proibir o jogo de botão porque, para poder jogar, arrancávamos os botões do uniforme. Era comum os alunos assistirem às aulas segurando as calças com as mãos", declarou certa vez o próprio Décourt.

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Em 1928 Décourt criou “Football Celotex”. Ninguém sabe ao certo o porquê deste nome, alguns dizem que era o nome oficial do tipo de madeira, um aglomerado, que Décourt usou para confeccionar as primeiras mesas. Outros dizem que, Celotex era o nome estampado na madeira dos engradados que Décourt conseguiu no porto do Rio de Janeiro para confecção das mesas, provavelmente era o nome da companhia de navegação ou do exportador.

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Em 1930 Décourt publicou o primeiro livro de regras oficiais e, a partir daí, os jogos de botões começavam uma curva evolutiva, digna de Darwin. Sendo assim, embora paulistas e paraenses digam o contrário, foi comprovadamente no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil, que o futebol de botão começou a se organizar e a tomar forma de esporte.

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A regra de futebol de mesa escrita por Geraldo Cardoso Décourt, que hoje foi bastante aprimorada e já não é mais utilizada, foi fundamental para o crescimento do esporte no Brasil. Décourt escreveu esta regra quando tinha apenas 19 anos de idade.

A regra foi noticiada pelo jornal A Noite Esportiva em 1930 em uma reportagem sobre o Celotex, da seguinte forma:

O Football Celotex é um esporte de mesa, no qual, em cada jogo, tomam parte dois amadores, que por sua vez representam dois teams formados por onze botões, assim distribuídos: um guardião, dois zagueiros, três médios e cinco dianteiros. Como se vê, o número de botões é idêntico ao número de players do Football Association. Para ser iniciado cada match é necessário que os vinte e dois botões estejam nas respectivas posições em mesa e, então, o desfavorecido pelo “toss” dará o “kick-off”, com o centro avante, o qual estenderá um passe para um dos lados, onde um outro botão do mesmo team impulsionará a bola, dando assim início ao jogo.

Como se vê, enquanto um segundo botão do team favorecido com a saída inicial não tocar na bola, não valerá goal. Procedida a saída, o outro amador, chamado de B, jogará com um de seus botões uma vez e assim, sucessivamente, um de cada vez até que seja registrada alguma falta. A única ocasião em que cada amador poderá jogar duas vezes seguidas é, pois, no momento da saída do centro. Depois de cada goal a bola deverá ser colocada no centro da mesa, e o team que tiver sido vazado dará a saída. No Football Celotex considera-se foul quando um botão do team A roçar noutro do team B, sem que antes tenha “tocado” na bola.

Considera-se hands (coisa raríssima) quando um botão do team A ficar sobre a bola. Neste caso, se for o guardião o infractor, proceder-se-á ordenando um “carring”, valendo goal direto. No foul e no hands valem goals directos, e se as respectivas penalidades forem consignadas dentro da área perigosa ordena-se um penalty. O “out-ball” é batido no lugar onde sair a bola, sendo que para ser valido um goal, procedente desta pena, é preciso que a bola toque em qualquer outro botão, antes de entrar na linha de goal. Nas saídas de goal ou, melhor, nos goal kicks, não será consignado o ponto proveniente da referida falta diretamente, mas sim depois que a bola tenha sido tocada propositalmente. Sempre que houver qualquer falta, os botões poderão ser removidos ou colocados pelas mãos dos patrões em lugares da mesa que este julguem convenientes. Os botões-guardiões só impulsionam a bola nos goal-kicks, e fora disso eles poderão ser colocados pelos patrões em qualquer momento da partida, mas antes que seja desferido o tiro a goal e não depois do tiro ser dado.

O tamanho oficial da mesa é de 1,20m de largura por 2,40m de comprimento. Essas medidas são de dentro do campo, sendo que a parte que ficar externando a marcação quanto maior for melhor será. As mesas devem ser feitas com um material americano feito das fibras do bagaço da cana-de-açúcar ou, então, de madeira coberta com um pano verde, próprio para cobrir mesas de jogo. “Aconselho estes dois exemplos pelo fato de ser necessário que a superfície não seja escorregadia.”
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Cópia "Xerox" de uma carta enviada por Décourt para
The Celotex Co. nos Estados Unidos
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Décourt conquistou o reconhecimento e admiração de uma legião de praticantes pela sua incansável dedicação em colocar esse esporte ao lado dos entretenimentos mais populares do Brasil.
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Décourt com Hideo Ué Filho do São Judas Futebol de Mesa
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Retrato de Décourt com dedicatória entregue
ao 'irmão" Adauto Sambaquy 
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Décourt na inauguração da Botunice entrega uma flâmula
ao grande amigo e "irmão" Adauto Sambaquy
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O dia 14 de fevereiro de 1911, dia do seu nascimento, foi oficializado pelo governador Geraldo Alckmin, em São Paulo, no ano de 2001, como o "Dia do Botonista". Segundo informa o Sr Izo Goldman, amigo de Décourt a homenagem ocorreu assim:

Em 1988 o Departamento de Futebol de Mesa d’A Hebraica encaminhou à Federaçao Paulista de Futebol de Mesa a sugestão para que o dia 14 de fevereiro, data de nascimento de Décourt, fosse oficializado como “DIA DO BOTONISTA”. Em 11 de junho do mesmo ano, durante o X Campeonato Brasileiro de Futebol de Mesa, a FPFM oficializou a data. Em junho de 1990, durante o X Campeonato Brasileiro de Futebol de Mesa a Federação Paraense apoiou oficialmente a idéia. Aí começou um trabalho que envolveu o Della Torre, a Dona Edda Décourt a Célia Atienza, Irma do Geraldo Atienza e eu. Em 2000 o Deputado Ramiro Meves apresentou o Projeto de Lei No. 169/2000 que instituía o “DIA DO BOTONISTA” a ser comemorado em 14 de fevereiro. Finalmente a Lei No. 10.833 de 02 de junho de 2001 instituiu o Dia do Botonista.

Décourt com Rubinho do Palmeiras em uma de
suas últimas imagens já na cadeira de rodas
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O documento dizia:

“Institui o “Dia do Botonista” o Governador do Estado de São Paulo

Faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:

Artigo 1º - Fica instituído o “Dia do Botonista”, a ser comemorado anualmente, no dia 14 de fevereiro.

Artigo 2º - Esta lei entra em vigor no dia de sua publicação.

Palácio dos Bandeirantes, 02 de julho de 2001.

Assinaram o documento:
Geraldo Alckmn (Governador do Estado de São Paulo)
Marcos Arbaitman (Secretário de Esportes e Turismo)
João Caramez (Secretário da Casa Civil)
Antonio Angarita (Secretário da gestão Estratégica)

Geraldo teve como grande aliado e colaborador Antonio Maria Della Torre que arregaçou as mangas e trabalhou como um apaixonado pelo esporte ajudou a divulgar e fomentar o esporte pelo Brasil afora. Na época já existiam diversas modalidades: na região norte e nordeste praticava-se a pastilha 1 toque, também chamada regra baiana, na região sudeste e sul praticava-se a modalidade 12 toques então chamada de Regra Paulista e na região sul e sudeste praticava-se a 3 toques ou também chamada regra carioca ou confederada.

Della Torre sempre ao lado de Décourt no futmesa
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Della Torre foi o grande responsável pelo reconhecimento do Futebol de Mesa como esporte pelo órgão responsável da época, o Conselho Nacional de Desportes (CND). Através da Resolução N.º 14, de 29 de setembro de 1988. Esta resolução acatou uma solicitação formulada por nove estados e levava em conta o grande número de praticantes do futmesa no Brasil (Ofício N.º 542/88 e Processo N.º 23005.000885/87-18). Esta resolução foi baseada na Lei N.º 6.251, de 8 de outubro de 1975 e no Decreto N.º 80.228, de 25 de agosto de 1977, assinada pelo seu então Conselheiro-Presidente Manoel José Gomes Tubino, o CND reconhece o Futebol de Mesa como modalidade desportiva praticada no Brasil, como uma vertente dos esportes de salão, no qual se incluem o xadrez e o bilhar, por exemplo.
Décourt foi um incansável divulgador e organizador de eventos de futebol de mesa, o que propiciou o desenvolvimento do esporte, assim como sua popularização.

Como uma verdadeira prova de amor ao esporte o Sr. Geraldo Décourt também foi o autor da letra e música do “Hino do Botonista”.

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Esta partitura foi encomendada ao músico Sérgio de Oliveira de Moraes em 1995, exclusivamente para o livro Botoníssimo, de Ubirajara Godoy Bueno.

Gravação com Décourt no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=-4f58x69JJY
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Letra do Hino do Botonista:

Botonista eu sou com justo orgulho
Boto muita fé no meu botão
Botonista eu sou com muita honra Isto é verdade,
Eu não me arrependo não
Botonista eu sou com persistência
Jogo a qualquer hora com prazer

Pois jogando em qualquer regra!
Eu vou praticando o meu lazer - bis

Eu jogo limpo, jogo sério sem esbulho,
Pois prá mim adversário considero como irmão

Aviso logo para quem jogar comigo que somente
Me vencendo poderá ser campeão - bis  

Geraldo Cardoso Décourt, faleceu em 27 de maio de 1998 mas continua vivo em nossa memória e deve ser muito homenageado neste ano de seu centenário.
Para homenageá-lo foi criada uma medalha comemorativa aos 100 anos de seu nascimento. A medalha, que tem o aval da CBFM, foi criada pelo design gráfico e grande artista Glenn Douglas, o famoso Pezão, e sua imagem pode, e deve, ser utilizada por todos, em seus sites, para homenagear o extraordinário Décourt.

2 comentários:

  1. Mais uma aula sobre nosso esporte.
    Parabéns pela iniciativa de resgatar a história.
    Um abç.
    Glaiton

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  2. Boa tarde gurizada!!

    Quero convidá-los a acessar nosso Blog, Identidade FM, para conhecerem as novas maletas do Boca Juniors de Leonardo da AFUMEPA e do Sevilla do atual Vice-campeão Brasileiro Sandro Golçalves da ARFM.

    http://identidadefm.blogspot.com/

    Grande Abraço.

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